A pintura e a
capacidade de transformar
Jean Lancri
......Uma
afirmação bem-conhecida do pintor Georges Braque permite realizar uma
reflexão sobre o trabalho pictórico de Eduardo Vieira da Cunha. Braque
afirmava que, para um pintor, a arte não consiste na reconstituição de
um fato ou de uma história, mas na constituição de um fato pictórico.
Mesmo que não cite este princípio, Vieira da Cunha o põe em prática em
sua obra. O pintor soube fazer de um detalhe o sentido do seu trabalho.
Em efeito, graças ao seu olhar- um olhar desenvolvido por meio da
fotografia e, posteriormente, da pintura- Vieira da Cunha nos mostra em
suas obras um trabalho de preelaboração da memória. Sua prática
plástica, aliada a uma pesquisa séria, permite a articulação de diversos
conceitos: a antropofagia, como noção metafórica do movimento moderno
brasileiro de ato regenerador e criador, porque se trata de um processo
de apropriação; a utilização de ex-votos brasileiros e a prática da
fotografia- particularmente o trabalho de fotografia de autor
desenvolvido pelo próprio artista, mas também de fotógrafos que ele
admira, como Joseph Südek. O que levou o artista a essa relação? Uma
reestruturação simbólica dos elementos do inconsciente. Tudo isso
contribuindo para a constituição de uma obra pessoal dotada de uma
grande densidade, preenchida com as cores do enigma.
......O todo do trabalho, entretanto, não
acontece sem o avanço de algumas hipóteses, sendo as mais fortes as que
situam na intersecção dos três campos considerados: ex-votos, fotografia
e antropofagia.
......Particularmente exemplar é o paralelo
introduzido entre o processo de revelação da imagem e a passagem os
ex-votos pela “sala de milagres”, expostos em sua pintura: a
transferência do negativo ao positivo (no caso da fotografia) é
comparada à cura (no caso dos ex-votos). De uma maneira geral, o
interesse do trabalho do autor está na reflexão sobre a estética,
especialmente sobre a estética da fotografia, dentro de um conjunto de
questionamentos mais amplo, de ordem antropológica.
......Para tanto, o artista soube se
utilizar de um trabalho quase carnal de apropriações em seu trabalho
pictórico; assim, a reflexão sobre a relação entre o processo
antropofágico e o processo fotográfico encontra-se confrontado com a
leitura da obra de François Soulages e Philippe Dubois. Da mesma forma,
a leitura de textos de Marie-José Mondzain permite ao pintor uma tomada
de consciência dos princípios teóricos e teológicos da encarnação e da
eucaristia, relacionando-os com o canibalismo. De onde surge o seguinte
questionamento: a fotografia deveria ser percebida como um operador
moderno da transubstanciação, porque ela possui a capacidade mágica de
transformar.
......Muitas são as questões que a leitura
das obras de Vieira da Cunha suscita, onde a palavra-chave é a
transformação. Transformação de biografia em ato pictórico, do sujeito à
imagem.
* Jean Lancri é professor emérito da Universidade de
Paris-I, Panthéon-Sorbonne. Autor de L’index montré du doight- l’Harmattan,
Paris, 2001