Múltiplas projeções
no caminho da representação
Eduardo Vieira da Cunha
Paris, junho de 2001

......Uma sala de cinema é um lugar de penumbra, misterioso. E o escuro é o lugar onde a memória prefere acontecer, como acontece num laboratório de revelação de fotografias. A necessidade da imagem matriz ser projetada em uma certa obscuridade traz uma série de componentes particulares: o mistério, a concentração. Até a apreensão do espaço é radicalmente modificada. E como na linguagem dos sonhos, as fronteiras são abolidas, os movimentos transformam-se em perpétuos. A máquina projeta o filme, o negativo e nós nos projetamos na tela, no papel sensível. Nem tão comuns como os laboratórios e as de cinema, as salas de milagres são lugares não menos misteriosas e intrigantes: atraído pelas suas particularidades, Claude Lévi-Strauss já as escolhera como tema de suas fotos nos anos 40 do século XX. Salas de milagres são os locais onde os fiéis depositam seus votos: imagens pintadas, esculturas em cera e em madeira, ou fotografias, que além de falarem das dificuldades e das provações pelas quais passam as pessoas, lembram acima de tudo da necessidade que todos nós temos de projetar uma imagem do mundo.
......Lembro destes locais de projeção para falar sobre o ato de fazer imagens, como algo movido essencialmente por esta vontade orgânica, quase mítica, de representar as coisas e os acontecimentos. Talvez seja por isso que a experiência de visitar uma sala de milagres me tenha provocado imediatamente a relação com câmaras escuras- seja uma câmera fotográfica, um laboratório de revelação, ou mesmo uma sala de cinema- onde se formam imagens. E a uma conseqüente reflexão sobre a origem do processo criativo.
......Vejamos os ex-votos: qual a movimento da alma que levaria estas pessoas comuns a criar tal jogo de espelhos entre a perfeição divina e a imperfeição humana, esta operação de transformação, esta recriação entre o sagrado e o profano que resulta sempre em uma imagem, uma escultura, uma pintura ou mesmo em uma fotografia?
......Ao ingressar neste campo de estudo, e durante todo um movimento de peregrinação por estas salas de milagres em diversas cidades e bairros periféricos do interior do Brasil para a elaboração de uma tese, procurei ter sempre presente, ao lado do princípio da projeção, o da reversão da imagem comum ao processo fotográfico: a transformação do negativo em positivo. Como em um negativo de fotografia, as figuras moldadas em cera dos ex-votos brasileiros seriam uma tentativa de revelar aquilo que se passa no interior do corpo do fiel. A intenção dele não é simplesmente a cura de um determinado mal, mas toda uma preparação para as surpresas da vida. Estes objetos em cera, ao preservarem as imagens do corpo dos fiéis conservando-os em valores de tons como se fosse uma reserva de sua vitalidade, funcionam como funciona o negativo: pela ausência, começam a revelar a presença. Como a fábula de Jonas no interior da baleia: quanto mais escuro o horizonte, mais o homem se aproxima da luz divina.
......Esta busca mítica, ancestral e instintiva de criar uma imagem do mundo me apareceu como uma espécie de memória involuntária cara à Marcel Proust, provocada pelo cheiro acre do hipossulfito, o fixador que é utilizado para que se obtenha imagens permanentes em fotografia. Há alguns anos atrás eu havia instalado um laboratório no porão da casa de meu avô, no interior do estado do Rio Grande do Sul, onde eu passava longos períodos de férias. A imagem daquela sombra irreal, avermelhada, a penumbra que abole as distâncias permitia que a projeção do facho luminoso esculpisse, habitasse o espaço, dando corpo aos volumes projetados no papel. E a surpresa diante do papel fotossensível aos poucos imprimindo uma forma, sensações que começaram a representar para mim um início do longo caminho da representação. Em um canto do laboratório, havia uma espécie de cômoda- quase um sarcófago- com gavetas cheias de negativos antigos. Eles possuíam uma carga emocional muito grande, e aqueles sorrisos em negativo me davam um certo sentimento de paralisia. Daí até que um outro passo fosse dado- a recuperação de certas imagens antigas através da revelação em positivo- foi um processo demorado.

Entre a percepção e a representação: o vôo

......A procura pela representação do mundo, pela recriação do mundo através de imagens- seja na fotografia ou no cinema seja no desenho ou na pintura- vem desta necessidade de assegurar-se que existe sempre um caminho entre a percepção e a representação. Fotografar, como desenhar e pintar, significa fazer constantemente esta passagem entre o estado psíquico saturado pelos sentidos no qual nos encontramos em um determinado momento, e a representação- o ato de fabricar uma imagem que subsista como único testemunho deste movimento.
......Assim, de certa forma entregue ao transe, foi que os ex-votos passaram a se revelar para mim como um universo maior, formado por objetos poéticos da representação próximo ao conceito ao qual se refere Bachelard. Pendurados nas paredes e principalmente o teto das salas de milagres, estes objetos se revelaram não mais como simples peças ou fotografias isoladas, mas, sobretudo, como um ambiente em estado de permanente levitação imaginária, com uma constante tentação de deixar a terra pelo céu. Voltando ao escuro do cinema: provocando de certa forma a mesma vertigem do personagem Dora, do filme Central do Brasil: A certa altura da trama, ao entrar em uma sala de milagres, Dora vê tudo rodar à sua volta: fotografias, pinturas, esculturas em cera. Seria a queda de Dora a mesma queda infinita que nos fala Edgar Allan Poe, aquela do desfalecimento, do desmaio? Quem nunca caiu, diz o poeta, não é o que cria, não é aquele que contempla as coisas sem representá-las.
......Neste transe, o teto de uma sala de milagres revela-se às vezes como um abismo invertido, às vezes como um caleidoscópio, de onde surgem novamente as das direções opostas nas quais nos fala Bachelard: o sonho da profundidade e o sonho da exaltação, do vôo: a terra e o ar.

O Aleph
......Quantas vezes, ao entrar na sala com o filme já iniciado, ou ao ingressar no interior de um quarto escuro para trabalhar na revelação de fotografias, não se sente um certo medo primitivo, da possibilidade de queda no escuro? quantas vezes o cone de luz que se desprendia da cabine de projeção de um cinema ou do ampliador fotográfico do laboratório não me lembrava o caleidoscópio, o Aleph de Borges?
......Primeira letra do alfabeto hebraico, o Aleph é um conto que dá nome a um livro de Jorge Luís Borges dos anos 40. Borges, sintomaticamente, usa seu próprio nome para o narrador. O contexto é a vida moderna, contemporânea, de Buenos Aires. No meio disso, Borges joga uma luz alucinatória sobre o Aleph. O dispositivo em questão, uma esfera de vidro, um brinquedo, um caleidoscópio, encontra-se no escuro porão da casa de Beatriz Viterbo, que está prestes a ser demolida. A matriz emocional da história é o amor de Borges por Beatriz, que já havia morrido, e todo um trabalho de luto e sua conseqüente transformação em imagens. A superação através do ato de representação e projeção de imagens.
......A convite de Carlos Argentino, o primo-irmão de Beatriz, Borges visita a casa da amada. A criada o faz entrar, dizendo que tivesse a bondade de esperar. “O menino”, diz ela ao se referir a anfitrião, “encontra-se como sempre no porão, revelando fotografias”. Na pequena sala onde Borges espera, estão pendurados diversos retratos de Beatriz, como se fossem ex-votos: Beatriz menina, Beatriz no dia do casamento, Beatriz de perfil, Beatriz de frente, sorrindo. Este conjunto de pequenos fragmentos da amada faz com que Borges inicie um diálogo com Beatriz. Carlos Argentino aparece, e logo convida Borges para penetra, e logo convida Borges para penetra no porão escuro: “- Desce”, diz ele. “Muito em breve poderás falar de verdade com todas as imagens de Beatriz”.
......Borges deita-se na escuridão do porão e experimenta uma espécie de transe, de vertigem. Ele descreve o Aleph como uma pequena esfera de vidro de 2 ou 3 centímetros de diâmetro onde os fragmentos de todo o espaço cósmico estivessem presentes. Um ponto que une todos os pontos. Do cristal, um espelho, seriam projetados e unidos todos os fragmentos de imagens vistos por Borges: da América do Sul surge, magicamente, a Europa. Do oriente surge o ocidente. Se todos os lugares da terra estão no Aleph, ali, naquele brinquedo escondido no escuro, estariam todas as luminárias, todas as lâmpadas. Da escuridão, surge a possibilidade da iluminação eterna através da projeção e da representação.

A imagem dos brinquedos
......Há um texto famoso de Beaudelaire intitulado A moral dos brinquedos que trata desta dialética do jogo e da imagem. Beaudelaire se refere à loja de brinquedos como um imenso mundo, um espaço saturado onde “o teto desapareceria sob os brinquedos que pendiam como estalactites maravilhosas”. Beaudelaire fala desta experiência como um verdadeiro fenômeno originário para a arte: “a primeira iniciação da criança à arte”, escreve ele, acrescentando: “e também para o conhecimento”. Georges Didi-Hubermann, por sua vez, retoma este tema, classificando as lanternas mágicas e os caleidoscópios como instrumentos de procura pelo conhecimento: “O mundo dos brinquedos não teve por acaso um papel fundamental no desenvolvimento das artes das luzes e sombras que são o cinema e a fotografia?” , pergunta o autor.
A projeção possui na verdade uma história mal conhecida, cujas raízes estão também na psicanálise, na geometria, na ótica e na representação pictórica. A palavra projetar significa imaginar, premeditar, prever, mas também expulsar, jogar, lançar. São palavras que designam atividades psíquicas e corporais. A criança que se projeta constantemente enquanto brinca. Em resumo, a projeção, quer cinematográfica ou mesmo de vídeo, requer uma certa penumbra, e a constante instalação de uma câmara obscura. Seria como se a pureza do fenômeno artístico tivesse um oposto, um negativo. Um teatro de sombras. Poderia ser esta a causa da projeção ser considerada através dos séculos como a arte da impostura, às luzes da moral e da religião. Impostura esta que sempre foi o assunto predileto de Marcel Duchamp. A arte, ou esta necessidade de projetar ou de criar uma imagem do mundo, também estaria próximo a esta idéia de impostura, de crime perfeito.
......A verdade é que este mesmo princípio construtivo do calidoscópio de transformar os pequenos fragmentos em uma coleção de imagens, assim como uma fotografia associada à outra pode, projetada, reconstruir um movimento no cinema, está também presente nos ex-votos. Tudo isto remete às idéias de Walter Benjamin, que associou o caleidoscópio à queda, numa experiência onde o sujeito se transforma em um brinquedo de seu próprio movimento. Há, logo depois, o surgimento de imagens projetadas, a cada passo renovadas, como se fosse um jogo físico com a própria queda. O resultado de tudo é a constituição de um conhecimento- ou até de uma sabedoria- que traz como conseqüência imediata um outro movimento- a vontade da criação de um trabalho em arte.

 

 

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Colagem, 1993


Desenho e colagem, 1992


Colagem, 1991


Desenho e colagem, 1993


Ex-votos, 1999
Igreja do Senhor do Bomfim


Desenho, 1986
60x80 cm.


Desenho, 1986
60x80 cm.


Acrílico sobre tela, 2002
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 2003
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 2003
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 2003
150x160 cm


Acrílico sobre tela, 2000
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 1992
110x100 cm


Acrílico sobre tela, 1992
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 1995
110x160 cm


Acrílico sobre tela, 1995
160x110 cm


Acrílico sobre tela, 1999
60x90 cm