South Atlantic
Stories
Evelyn Berg
......A
exposição “ South Atlantic Stories- a visual approach”, resultado do
prêmio Brooklyn College Fundation, revela um pintor surpreendentemente
maduro. Seu traço seguro já estava presente na produção do exímio
desenhista, guardada a sete chaves. Seu domínio absoluto da luz vem dos
muitos anos como fotógrafo profissional em que aprendeu, antes de mais
nada, a respeitá-la. Reconhecer sua importância, usá-la.
......O universo mito-mágico de Vieira da
Cunha é que surpreende e prende: depois dele, o olhar do espectador
nunca mais será o mesmo. Há uma estranheza nos temas que o pintor aborda
que enlaçam o espectador, levando-o a uma viagem dentro dos confins da
obra. Eduardo Vieira da Cunha reporta vagas histórias de uma viagem à
Mostardas, no Rio Grande do Sul, navios naufragados, caprinos entoando o
canto da sereia. E a solidão. O farol da Solidão. O homem que habita o
farol da Solidão e, no entanto, não está só. Um navio encalhado nas
dunas, as mesmas dunas que aparecem manchadas do sangue ritual da
expiação. O homem que habita o navio que encalhou na areia. No mar
encarpelado que exibe dentes à moda dos gravadores japoneses, o artista
vê flutuar um ônibus, veículo dos sonhos. Como os sonhos são leves, o
ônibus não afunda.
......Um mundo fantástico e, portanto,
longínquo. Ao mesmo tempo, um mundo absolutamente à mão, num mero fechar
de olhos. Foi preciso que Eduardo Vieira da Cunha se exilasse em Nova
Iorque, por conta de um mestrado em Artes Plásticas e, imprensado pelo
gigantismo do novo cenário, fizesse jorrar de seu imaginário um grupo de
figuras arquetípicas que ele alguma vez conheceu no Atlântico Sul. O
menino que ficou órfão com um ano de idade faz um mergulho em si mesmo,
como visão obsessiva de figuras míticas que ele próprio identifica o
elemento trágico. O avião que explodiu, estilhaços na paisagem; o ônibus
que navega sob o foco de luz, a luz que traz para a cena a figura do
caprino, bode, ovelha, cabrito?
......A história contada pelos moradores de
Mostardas fala de carneiros que, feito iscas vivas, atraem navios com
marinheiros solitários. Já os cabritos, símbolos catônicos, seriam
justamente as divindades protetoras dos náufragos. Divindades de
mistérios, cujo santuário se localizava na Semocrácia, não podiam ser
invocados impunemente, a não ser por iniciados (e os artistas são, por
definição, iniciados).
......Outras (de muitas) leituras: no
pensamento judaico, expresso no Tamlud, “azalel” seria o espírito
maligno associado a um grupo de demônios sob a forma de cabras que
assombravam o deserto. Que deserto? O do farol da Solidão? Quilômetros e
mais quilômetros de areias solitárias? Espírito maligno que fazia
encalhar os navios para que depois fossem saqueados?
......Ainda no Talmud, Yoma 6:8. Diz: “o
sumo sacerdote era partivccipado: o bode alcançou o deserto”. Como é que
eles sabiam que o bode tinha alcançado o deserto? Eles colocavam pontos
de sentinelas e daí acenavam com panos. Uma fita escarlate era amarrada
à porta do santuário. Quando o bode atingia o deserto a fita tornava-se
branca, conforme está escrito: “Embora seus pecados sejam de cor
escarlate, eles se tornarão brancos como a neve”.
......É o bode expiatório, aquele que,
enviado ao deserto onde habita o demônio (azalel) representa a parcela
demoníaca do povo, o peso de seus pecados. O bode expiatório sofre a
pena do banimento, do afastamento, da relegação.
O bode expiatório é banido, é exilado. Não para Nova Iorque, mas para
além das terras de Israel.
......Muitas outras leituras. A figura do
bode simboliza ainda (segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant), a
pujança genésica, a força vital, a libido, a fecundidade. Ao contrário
do carneiro que é diurno e solar, o bode é noturno e lunar. Ele é, antes
de mais nada, um animal trágico. Não é por outra razão que ”tragédia”
significa literalmente “canto do bode”.
“Canto do bode” poderia chamar-se a série de pinturas de Eduardo Vieira
da Cunha, ou, simetricamente, “Tragédia”. Circunscrita em cercas
circulares, demarcadas por um capuz luminoso, a estranheza dos signos da
pintura arrebata o espectador, evocando na sua ambigüidade semântica
todo um universo mágico. Decifra-me, parece instigar o artista, ou te
devoro.
......É preciso prestar muita atenção neste
artista. Há um mundo de signos contidos na sua pincelada segura e
obsessiva, detalhista e preciosa. Há um mundo de referências: verdade
onírica e mítica e, portanto mais verdade. É preciso acompanhar sua
obra.