| |

Pintura em negativo
Eduardo Vieira da Cunha
......A sombra é a face oculta da
fotografia. Sempre escondida, transformada, manipulada, a sombra é,
entretanto, matéria-prima, como a luz, que inscreve as formas. Se
fotografar consiste em gravar com a luz, esta mesma luz não é disposta,
desenhada, sobreposta, como acontece na pintura. Ela é transformada em
sombras, depois de passar por uma série de processos físicos e químicos.
Uma
transubstanciação, que acontece a partir das sombras da câmera
obscura. Revelar uma imagem corresponde então em passar por esta
alquimia regida pela sombra e pela luz.
......O negativo fotográfico, como imagem
invertida, é carregado de sombras. Ver uma imagem em negativo significa
jogar com a duplicidade do dentro/fora da câmara: interior
obscuro/exterior claro. Mas haveria mesmo uma distância entre a imagem
negativa e positiva?
......A imagem inversa dos negativos sempre
foi guardada, escondida. Na sombra dos velhos arquivos. Nas gavetas,
longe da luz, Talvez para diferenciá-la da imagem em positivo, final e
luminosa. Este mistério das sombras confere à fotografia uma força
simbólica: a da melancolia das imagens. Hoje, quando os processos
digitais vem abolir o velho negativo, é necessário uma reflexão sobre a
sua importância simbólica e metafórica: um eclipse das sombras.
......Ao contrário da pintura, que nasce do
ato de acrescentar sombras e luzes, sempre me fascinou o nascimento da
imagem pela fotografia, através do negativo. Límpida, transparente,
plana, a imagem fotográfica só encontra sua espessura e seu corpo nas
sombras do negativo. E só porque este corpo guarda consigo a alma das
coisas ainda não assimiladas, é que ele depende de cuidados especiais.
Pois só nesta condição de guardado ao abrigo por um tempo, latente, ele
poderá revelar possível mais tarde o desejo: aquele da assimilação das
experiências passageiras.
......Assim como a luz mais intensa oculta
as sombras, o velho negativo sempre foi escondido, talvez por excesso de
zelo e instinto de preservação, de todo o processo fotográfico. Uma
operação que traz consigo uma certa melancolia: a de um trabalho
constante do luto da perda do momento, do tempo, da aura. No ato de
arquivamento, de inventário, há ainda este paradoxal confronto entre
raridade do negativo único e luto pela aura perdida, pelo momento
perdido. Os envelopes de um arquivo de negativos representam assim a
melancólica possibilidade de recuperação das perdas em lembranças, em
imagens.
......Entretanto, é exatamente no seu
paradoxal retorno ao arquivo que o negativo se valoriza, livre do seu
duplo. Seu corpo torna-se palpável, classificado, organizado: assim a
sua alma revela a capacidade de ser repositório do mundo, matéria-prima
infinitamente interpretável. André Malraux já disse certa vez que a
matéria-prima do artista não é jamais a vida, nem o real, mas um duplo:
outra obra. Deste modo, o poeta não seria aquele que ama a aurora, mas o
que ama os poemas. O pintor não seria o que ama as paisagens, mas o que
ama as pinturas. Esta projeção, aplicada à fotografia, poderia resultar
na afirmação que o fotógrafo não é aquele que tem o prazer de observar a
natureza ou o corpo, mas quem ama realizar o corte do continuum e deseja
ver estes cortes revertidos em possibilidades de infinitas imagens, ou
melhor, transformados, e arquivadas em negativos. Só assim a autópsia, o
inventário e o luto poderão ser feitos. Definitivamente organizados no
arquivo imutável da imagem, aquele que guarda o poder de transformar,
reverter, para também assimilar. Uma caixa de negativos corresponderia
assim a uma caixa-preta psíquica: Ambas são movidas pelo desejo de
assimilar as coisas que nos cercam, incluindo as perdas.
A parte sombria
......Antes
que pareça purista demais, esta análise pretende falar sobre a ausência
de uma reflexão a respeito do negativo, por indiferença ou por falta de
conhecimento, na maior parte de estudos contemporâneos da fotografia. A
tal ponto que certos textos parecem postular uma epifania direta da
fotografia dita “positiva”, em razão de sua evidente visibilidade. Mas a
cópia em positivo operaria um retorno garantido da realidade visual?
Haveria uma distância entre a imagem negativa e positiva? E a imagem
inversa não seria ela própria também uma imagem, com seus sistemas de
signos próprios?
......A
sombra de alguma coisa designa metaforicamente seu inverso. Um inverso
que adere, que cola à coisa da qual se originou, e que inseparável e
melancolicamente a acompanha, a persegue: a assombra. A noite, a morte,
o negro, o invisível, são os inversos do dia, da vida, do branco, do
visível. E são ao mesmo tempo os seus prolongamentos. Esta dupla relação
de prolongamento e de inversão das sombras representa o próprio
princípio da fotografia, que fornece aos objetos uma impressão de modo
inverso: em negativo. A fotografia revela-se assim como uma máquina
capaz de produzir sombras negras e brancas dos objetos. Se pensarmos em
negativos coloridos, as cores se chamam sugestivamente de complementares
daquelas dos objetos. Diferente então da pintura, que nasceria deste ato
de acrescentar as sombras e luzes, a fotografia surgiria da incerteza:
as vibrações luminosas são presas pelo obturador pelo silêncio, pela
ausência, sobre uma imagem latente, invisivel. Uma promessa de imagem,
uma imagem a surgir, incerta e frágil. Ela não possui outra realidade do
que o seu desejo, a sua angústia pelo que pode vir, tanto que nós a
descobriremos quando nada mais poderia mudar. Como a fecundação, a
gestação e o nascimento, acontece um mesmo percurso pela escuridão, uma
mesma conjunção melancólica de anseio e angústia, um mesmo ato sublime
da revelação da vida, da assimilação. Uma sombra essencial e
construtiva. Um corpo que não possui mais a capacidade de projetar uma
sombra, ou que não se reflete mais nos espelhos, pode significar um
corpo que perdeu a sua alma.
......A
fotografia pode ser de certa forma associada à inocência: nela não
existem dobras, tudo é plano, transparente, as cópias são lisas demais,
delgadas demais, para esconder fantasmas e mistérios. Não há excesso de
matéria, nem rugosidades, que possam absorver qualquer medo do escuro. A
sombra seria uma face secreta da fotografia - uma alma escondida no
negativo, uma face noturna a qual se deve procurar atrás de véus, em
lugares íntimos e desapercebidos na intimidade de um rosto. Se o reino
dos céus é um reino sem sombras, sem noite nem dia, a sombra é uma arte
possível da melancolia humana. Uma forma de ver o divino, de ver o
invisível através dos signos do corpo. Graças à sombra do divino, o
homem é um ser iluminado e salvo da morte.
|
|
click para ampliar
Instalação
com chapas fotográficas, 2003

Álbum de família
instalação, 2001

Álbum de família
instalação, 2001

Instalação com gavetas, 1999

Folha de contato, 1992

Folha de contato, 1994

Negativo em vidro, c. 1920

Negativo em vidro, c. 1920
|
|